Seminário Permanente de Filosofia

Professor Desidério Murcho
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Ouro Preto

Primeiro semestre de 2011
Quintas-feiras, 14:00-16:00

Apresentação

O Seminário Permanente de Filosofia da UFOP estimula uma tempestade exploratória de idéias, que visa ajudar quem está trabalhando num dado tema. Presumindo que o trabalho preparatório prévio de exegese e compreensão dos textos filosóficos já foi feito, não se discute essas matérias no Seminário, mas antes os próprios problemas, teorias e argumentos da filosofia. No Seminário faz-se filosofia em voz alta, ao vivo e em direto.

A cada semana, um aluno ou professor apresenta, de modo imanente, um dado problema e as diferentes tentativas de resposta, exploradas ou não na bibliografia da área. A apresentação é imanente no sentido em que há a preocupação de apresentar todos os elementos, incluindo instrumentais, que permitam a quem não conhece a bibliografia da área contribuir para a discussão. O objetivo é que os contra-exemplos, objeções e idéias dos membros do Seminário ajudem o apresentador, dando-lhe ideias novas e melhorando a sua própria compreensão do problema e das respectivas tentativas de resposta. O objetivo da discussão é explorar vias teóricas e argumentativas possíveis, e não "ganhar" discussões.

Cada sessão tem aproximadamente a seguinte estrutura:

  • 10 minutos de exposição imanente do problema em causa, incluindo portanto todos os conceitos necessários para o compreender.
  • 20 minutos de exposição também imanente das diferentes tentativas de resposta possíveis e presentes na bibliografia, dando destaque à tentativa de resposta favorecida pelo apresentador, se alguma existir.
  • 90 minutos de discussão aberta.

O Seminário é aberto a todos os professores e estudantes que queiram participar e poderá convidar estudantes e professores de outras instituições. Todas as sugestões são bem-vindas.

Calendário

  • 7 de Abril: Existe isto — dilema moral? (Pedro Merlussi, UFOP)
    Na presente comunicação apresentarei os argumentos de Bernard Williams, Ruth Barcan Marcus e E. J. Lemmon a favor da tese de que os dilemas morais são possíveis. O meu objetivo, em primeiro lugar, consiste em mostrar que esses argumentos não são cogentes. Em segundo lugar, procuro mostrar que, aceitando dois princípios à primeira vista bem razoáveis da lógica deôntica (o princípio kantiano e o princípio de aglomeração), temos de recusar a possibilidade da existência de dilemas morais. Assim, eis que surge um aparente paradoxo: as nossas intuições parecem atestar a possibilidade de dilemas morais, mas, admitindo o princípio kantiano e o princípio de aglomeração, segue-se que os dilemas morais são impossíveis. Procurarei, na última etapa desta comunicação, argumentar que há uma confusão a respeito das nossas intuições com relação à possibilidade de dilemas morais. Argumentarei que nossas intuições atestam que se trata de um caso no qual não sabemos o que fazer (em virtude de nossa limitação cognitiva), mas não atestam que seja um conflito genuíno de obrigações.
  • 14 de Abril: Dois argumentos a favor da moralidade do aborto (Rafael d'Aversa, UFOP)
    A questão de saber se o aborto é moralmente correto constitui um problema central da ética aplicada. Duas são as posições que visam responder-lhe. Tais posições são geralmente divididas em pró-escolha e pró-vida. A presente comunicação tem por objetivo apresentar dois argumentos a favor da posição pró-escolha. Basear-nos-emos nas perspectivas de dois autores: Judith Thomson e Michael Tooley. Ao contrário do que fazem muitos defensores do aborto, Thomson não nega a ideia de que o feto é um ser humano nem tampouco que tem direito moral à vida. Pelo contrário, aceita estas duas premissas e tenta mostrar que não implicam a conclusão de que o aborto é moralmente incorreto. Já Tooley adota outra estratégia. A partir de uma análise do que significa ter direito a algo, procura sustentar a conclusão de que o embrião ou feto não tem direito moral à vida. Por fim, procuraremos desfazer alguns equívocos acerca do problema moral do aborto que amiúde figuram nas discussões públicas.
  • 28 de Abril: Contra os Mundos Possíveis (Desidério Murcho)
    Nas últimas décadas, a idéia de mundos possíveis tem desempenhado um papel lógico e filosófico muito importante. A semântica dos mundos possíveis é um instrumento lógico poderoso, com amplas aplicações em diversas lógicas modais — não apenas nas lógicas modais aléticas, mas também noutras lógicas, como as deônticas. Ao mesmo tempo, herdamos de Hume um legado filosófico que se caracteriza por considerar os conceitos modais confusões obscurantistas e anticientíficas. Não é assim de espantar que se tenha tentado usar o conceito de mundo possível para apresentar uma análise redutiva dos conceitos modais. Se este tipo de análise for bem-sucedido, reduzem-se os misteriosos conceitos modais a conceitos não modais. O objetivo desta comunicação é mostrar que razões há para pensar que a redução mais famosa e aparentemente bem-sucedida, a de David Lewis, não é afinal bem-sucedida. Mas irei sugerir também que o que impede que esta redução seja bem-sucedida irá impedir também qualquer outro tipo de redução de ser bem-sucedida.
  • 12 de Maio: Causalidade probabilística e a mecânica quântica (Mayra Moreira da Costa, UFMG)
    Apresentarei de forma bastante simplificada a discussão sobre o problema da aplicação da causalidade no domínio indeterminístico da mecânica quântica, tendo como plano de fundo a análise das concepções de causalidade probabilística presentes nas teorias de Hans Reichenbach e Wesley Salmon. A formulação de teorias que concebem a causalidade como probabilística pode ser vista com entusiasmo por alguém que tenda a acreditar na possibilidade de teorias causais descreverem satisfatoriamente os fenômenos previstos pela teoria quântica, mas ao mesmo tempo não pretende negar que o domínio dessa teoria seja caracterizado pela aleatoriedade. Infelizmente, tal descrição parece não poder ser concretizada pelas teorias que serão avaliadas aqui. Apesar disso, defenderei que o caráter indeterminístico da mecânica quântica não desempenha um papel central nesse fracasso, pelo menos diretamente.
  • 9 de Junho: A Regressão Infinita de Russell contra o Nominalismo da Semelhança (Lucas Miotto Lopes, UFOP) O nominalismo da semelhança é a tese de que podemos explicar as propriedades com base nas relações de semelhança entre particulares e, por isso, de que não precisamos postular a existência de universais. Russell, em Os Problemas da Filosofia, objetou ao nominalismo de semelhança argumentando que a própria semelhança é um universal e não há maneira de o rejeitar sem cair numa regressão infinita. Sendo a semelhança um universal, parece então que não temos boas razões para não aceitarmos a existência de outros universais.
    Nesta apresentação formulo e objeto a dois argumentos nominalistas contra o problema da regressão infinita de Russell. O primeiro argumento é o de James Cargile (2003), o qual defende que a regressão infinita não ocorre ao tomarmos um particular como paradigma de uma dada propriedade. O segundo argumento é o de Rodriguez-Pereyra (2001), o qual defende que a própria existência dos particulares implica a relação de semelhança. Para isso, ele toma os particulares como veridadores das proposições, ou seja, os particulares, e somente eles, determinam as condições de verdade de uma dada proposição. Assim, a proposição de que X é semelhante a Y será verdadeira pelo simples fato de X e Y existirem: existir é condição suficiente da semelhança.
    Defendo que estes argumentos não são cogentes e que o problema da regressão infinita de Russell se aplica não só ao nominalismo da semelhança, mas a qualquer tese que dependa de relações. Por fim, tento mostrar que elementos uma resposta satisfatória a Russell deve conter.

Segundo semestre de 2010

  • 13 de Agosto: O Paradoxo da Conhecibilidade (Iago Bozza Francisco, UFOP)
  • 20 de Agosto: A Natureza dos Números (Daniela Moura Soares, UFOP)
  • 27 de Agosto: A Natureza da Ficção (José Costa Júnior, UFOP)
  • 3 de Setembro: Resistindo à Força do Argumento (Fernando Fabrício Rodrigues Furtado, UFOP)
  • 17 de Setembro: A Natureza do Tempo (Mayra Moreira da Costa, UFMG)
  • 24 de Setembro: Conhecimento Pela Palavra dos Outros (Delvair Moreira, UFOP)
  • 1 de Outubro: O Compatibilismo de Harry Frankfurt (Luiz Helvécio Marques Segundo, UFOP)
    As posições compatibilistas são, em geral, as mais promissoras no debate sobre o livre-arbítrio e o determinismo. Um compatibilista tenta reconciliar duas crenças aparentemente inconsistentes: a crença de que eu poderia ter feito diferente (livre-arbítrio) com a crença de que o universo é determinado. Uma resposta compatibilista influente encontra-se em Frankfurt (1971), onde ele pretende explicar as nossas ações livres em termos de determinações de desejos: temos livre-arbítrio se formos capazes de determinar aquilo que vamos querer. O meu objetivo é mostrar que enquanto resposta compatibilista, a resposta de Frankfurt não é capaz de evitar a principal objeção ao compatibilismo, nomeadamente, a de que tudo o que o compatibilista faz é explicar nossa sensação de livre agência, e como conseqüência a ilusão do livre-arbítrio.
  • 29 de Outubro: Propriedades Disposicionais e Categóricas (Rodrigo Alexandre de Figueiredo, UFRJ)
    A solubilidade (do sal na água), a fragilidade (da xícara de porcelana) e a humildade (de Sócrates), são casos paradigmáticos de propriedades disposicionais. Por outro lado, a esfericidade e a massa (de uma bola de futebol) são propriedades ditas "categóricas." Estas últimas ocorrem nos objetos, enquanto as disposicionais não: ao analisar uma porção de sal não encontramos a sua disposição de se dissolver na água, mas podemos encontrar a sua massa. Mas como distinguir estes dois tipos de propriedades? O meu objetivo é discutir a tese do " acarretamento," segundo a qual as propriedades disposicionais acarretam, enquanto as categóricas não, uma condicional subjuntiva (ou uma contrafactual).
  • 19 de Outubro: Se Entender, Tem Significado (Fernando Fabrício Rodrigues Furtado, UFOP)
  • 26 de Novembro: Argumentos comuns na defesa da legalização do aborto: por que não funcionam? (Bárbara Pádua, UFMG)
    Quando se discute a legalização do aborto pode-se perceber que há certos argumentos que são frequentemente utilizados para a sua defesa. Tais argumentos podem ser encontrados nos jornais, discursos políticos, e variadas manifestações sociais. O objetivo desta apresentação é mostrar que os argumentos mais divulgados para se defender a legalização do aborto não são boas razões para sustentar essa posição. Essa análise, ainda que bastante introdutória, já permite delinear os problemas filosóficos que se encontram no problema da legalização do aborto.
  • 3 de Dezembro: O Número de Planetas é um Número (Desidério Murcho, UFOP)
    John Biro argumenta em "The Number of Planets is not a Number" (Analysis 70.4, Outubro de 2010) que a expressão "O número de planetas = 9" não é uma afirmação de identidade, mas antes uma predicação. Nesta comunicação começo por apresentar as razões que uma pessoa poderia ter para defender tal tese, que não são as razões de Biro, e mostro que não funcionam. Na segunda parte mostro que as razões de Biro também não funcionam. Concluo assim que a expressão acima é uma afirmação de identidade e não uma predicação.